Copa do Mundo na infância: o que as paixões ensinam sobre pertencimento e frustração?

Especialista aponta que o campeonato pode ser uma das primeiras experiências coletivas de emoção de crianças

A cada quatro anos, a Copa do Mundo entra na vida do brasileiro, entusiasma torcedor, muda a rotina das famílias e, muitas vezes, coloca as crianças com as primeiras grandes experiências coletivas de emoção. Nesse momento, é muito comum observar o surgimento de ídolos. 

Na prática, o encanto pode começar no esporte, mas se espalha para brincadeiras, desenhos, fantasias e conversas que organizam boa parte do convívio infantil. Ainda, e especialmente neste ano, basta olhar em bancas de revistas, shoppings e praças para ver que o entusiasmo e o compartilhamento dessa emoção futebolística está por todos os lados em meio a coleção e troca de figurinhas que compõem o álbum da seleção.

Para a professora de psicologia do UniBH, Aline Ottoni, esse tipo de envolvimento da criança é parte estruturante do desenvolvimento infantil. “Os ídolos costumam funcionar como referências importantes para a construção da identidade. Por meio deles, crianças e adolescentes exploram valores, pertencimentos e possibilidades de quem podem se tornar. A admiração também ajuda na inserção em grupos e nas relações sociais”, explica.

Identificação e diversidade

A especialista também chama atenção para a importância do contato com referências diversas entre os ídolos que admira, a fim de ampliar possibilidades de identificação. “Quando crianças encontram diferentes histórias, trajetórias e características entre as pessoas que admiram, tendem a construir uma visão mais ampla de si mesmas e do mundo”, completa.

A Copa do Mundo Feminina, em 2027, por exemplo, representa uma oportunidade para ampliar a diversidade das referências no futebol. Embora o gênero ainda marque uma divisão no esporte, a visibilidade conquistada por nomes como Marta ampliou o repertório de ídolas possíveis às garotas.

A frustração também ensina

Mas nem todo sonho se realiza. A seleção pode perder – para gerações que nem ao menos viram o Brasil ganhar –, alguém pode ser eliminado e a expectativa criada ao longo de semanas pode ser quebrada em poucos minutos de jogo. Para uma criança que se envolveu com a competição, essa quebra pode doer de verdade, e os adultos costumam subestimar esse impacto.

Aline Ottoni classifica que, quando existe um grande investimento afetivo, a derrota pode gerar tristeza, decepção ou raiva. “O papel dos adultos é acolher essas emoções e ajudar a criança a compreender e expressar o que está sentindo, porque o impacto dessas experiências também é construído nas relações e nas conversas familiares, e não apenas a partir do evento”, orienta.

Virtualização dos ídolos requer atenção de pais

O cenário em que essas paixões crescem, porém, tem mudado. Se antes os ídolos da infância eram jogadores de futebol ou personagens de desenho e novela, hoje boa parte do tempo de tela das crianças brasileiras é ocupado por criadores de conteúdo digital. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 46% dos usuários de 9 a 17 anos assistem a vídeos de influenciadores várias vezes ao dia – o formato mais consumido por essa faixa etária no país.

Os números sugerem que parte importante da construção de identidade e referências de crianças e adolescentes passa por plataformas que movimentam tendências e públicos de diversas maneiras no ecossistema digital.

“As referências digitais trazem uma sensação maior de proximidade e presença no cotidiano. Isso pode tornar os vínculos mais intensos e frequentes”, avalia a professora do UniBH. Essa mudança, para ela, não elimina a função psicológica dos ídolos e, inclusive, reconfigura quem ocupa esse lugar e a velocidade com que o conteúdo chega até as crianças, hoje nativas digitais.

Até que ponto, então, a paixão ajuda a criança a se expressar e pertencer a um grupo, e quando ela se torna motivo de preocupação? Aline explica que a admiração costuma ser uma experiência saudável e importante para o desenvolvimento, mas que a questão merece atenção quando se torna excessivamente rígida, dificulta a tolerância às diferenças ou ocupa espaço desproporcional na vida da criança.

A velocidade com que os conteúdos circulam hoje, diferente da exposição espaçada existia antes das plataformas digitais, torna esse acompanhamento ainda mais necessário por parte de pais e responsáveis.

Sobre o UniBH

Com 62 anos de fundação, o UniBH alia tradição e inovação acadêmica, fazendo parte da Ânima Educação, o maior e o mais inovador ecossistema de ensino de qualidade para o Brasil. Reconhecido pelo MEC como um dos melhores centros universitários privados de Belo Horizonte, a instituição oferece mais de 100 cursos de graduação e pós-graduação com professores mestres e doutores reconhecidos no mercado. No UniBH, os alunos também vivenciam uma formação conectada à prática e ao impacto social, participando de projetos voltados para a sociedade que contribuem para solucionar problemas reais em diversas áreas do conhecimento. Saiba mais em: unibh.br/

Informações para imprensa:

ÁrvorePress

Náthaly Escobar
nathaly@arvorepress.com.br – (31) 98681-6515